TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS TRAUMÁTICO E O CASO DOS MENINOS PRESOS NA CAVERNA

As consequências da exposição humana a situações traumáticas como guerras, desastres naturais e violência urbana têm sido amplamente estudada ao longo do tempo. Nos últimos dias o mundo todo acompanhou o dramático resgate de um grupo de adolescentes presos em uma caverna na Tailândia. Por persistência e empenho, uma competente equipe conseguiu resgatá-los sem que tenham sofrido graves danos físicos, após permanecerem 18 dias, 9 deles sem contato algum com o mundo externo, encurralados no interior de uma caverna escura e inundada. Muito se tem questionado sobre a saúde mental destes adolescentes após este episódio, sem dúvida, traumático na vida de todos eles. Entre os possíveis problemas psicológicos que pessoas expostas a situações como esta podem enfrentar estão os Transtornos de Ansiedade e o Transtorno de Estresse Pós Traumático. Neste post falarei um pouco sobre este último.

Transtorno de Estresse Pós Traumático: O que é?

O DSM V (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais) define como Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT) o acometimento após um evento traumático, por lembranças recorrentes e intrusivas do evento, onde a pessoa vivenciou, testemunhou ou foi confrontada com situações onde houveram ameaças à integridade física da própria pessoa ou de terceiros. Como resultado deste evento, a pessoa apresenta de modo persistente a revivência do evento por meio de recordações aflitivas, intrusivas, incluindo imagens, pensamentos ou sonhos. Este quadro pode fazer com que a pessoa sinta como se o evento traumático estivesse acontecendo novamente, seja por meio de sentimentos de revivência experiencial ou flash-backs. A pessoa enfrenta intenso sofrimento psicológico, podendo ainda apresentar reações fisiológicas quando exposta a indícios que lembram algum aspecto do evento causador do trauma.

Podem ocorrer ainda evitação de estímulos associados ao trauma, indicado por esforços persistentes em evitar pensamentos, sentimentos ou conversas associadas ao evento, bem como evitar lugares, atividades e pessoas que lembrem de alguma forma a situação traumática.

A redução da capacidade de dar ou sentir afeto ou ainda a pouca perspectiva de futuro também ocorrem frequentemente. Outros sintomas típicos neste transtorno é a hiperexcitabilidade, podendo causar dificuldade para adormecer/manter o sono, irritabilidade, crises de raiva, dificuldades de concentração, hipervigilância e resposta de sobressalto exagerada.

Estes sintomas tendem a aparecer nos três primeiros meses após o evento traumático, mas também podem ocorrer no intervalo assintomático de meses e até mesmo de anos.

Tanto o aparecimento quando o curso do transtorno podem ser influenciados por experiências na infância, personalidade, histórico de outros transtornos, história familiar e rede de apoio. Além disso, este transtorno também pode se desenvolver em pessoas sem qualquer predisposição, se o evento traumático for particularmente extremo.

O caso dos meninos presos na caverna: Impacto sobre a saúde mental

No caso dos meninos presos na caverna, o fato de estarem em um grupo com ligação afetiva significativa como um time de futebol, pode ter sido um fator protetivo e que tenha atenuado o estresse que o momento causou. Outro fator positivo, é a presença de uma figura adulta de referência, como o treinador de futebol, que desempenhou um papel de fundamental importância como guia e mentor do grupo. O fato de ter uma figura de referência e segurança como o treinador, possibilitou que os meninos pudessem manter-se calmos e unidos, fato este apontado pelos membros da equipe de resgate.

Apesar das circunstâncias difíceis, os meninos mantiveram-se bem-humorados, otimistas e gratos pelo esforço que a equipe dispensou para encontrá-los. É provável que durante o tempo em que estiveram presos na caverna, os meninos tenham oscilado entre momentos de desesperança/medo e de esperança/otimismo, mas o fato de estarem em grupo e com um adulto como líder, pode ter sido fundamental para que o evento não tenha sido ainda mais traumático.

Tão importante quanto o resgate, é a forma como os garotos serão tratados nas horas seguintes ao resgate. A literatura aponta que as primeiras horas após o evento traumático são de fundamental importância para minimizar efeitos negativos de longo prazo possivelmente causados pelo evento.

O acompanhamento psicológico neste caso é indispensável, pois estima-se que um terço do grupo venha a ter problemas psicológicos causados por esta experiência.

O papel dos adultos neste caso é essencial para ajudá-los a lidar com a situação. A comunicação clara e honesta com cada um dos meninos é fundamental, encorajá-los a falar sobre seus sentimentos, evitando esconder suas emoções é um passo importante para lidar com o problema de forma mais funcional

Cultura e resiliência

Vale ressaltar a particularidade da cultura na qual os garotos foram criados como outro fator protetivo. A Tailândia é um país onde o budismo é bastante praticado, pois cerca de 95% dos tailandeses são budistas. Ou seja, sua cultura é fortemente influenciada pela filosofia budista e outras tradições milenares.

Os tailandeses são considerados um povo modesto e respeitoso, talvez por isso a Tailândia seja conhecida como “A terra do sorriso”. A divulgação de fotos do interior da caverna mostrando o grupo meditando, bem como o fato de o treinador dos meninos ter sido monge budista, nos faz pensar que mesmo que a experiência tenha sido extremamente ruim para todos, eles ainda assim parecem ter mais recursos pessoais para lidar com este tipo de evento do que a maioria de nós teria em uma situação semelhante.

REFERÊNCIAS

RANGÉ, Bernard. Psicoterapias cognitivo comportamentais: Um diálogo com a psiquiatria. Artmed, Porto Alegre. 2001.

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