Trata-se de um transtorno alimentar caracterizado pela ingestão descontrolada de grande quantidade de alimentos durante um curto espaço de tempo. De uma maneira geral, a pessoa com compulsão alimentar perde o controle sobre o que está comendo, ingerindo alimentos mesmo na ausência de fome. Nestes casos, há a preferência pelo consumo de alimentos muito calóricos.
COMO SABER SE EXISTE DE FATO A COMPULSÃO ALIMENTAR?
Segundo o Manual de Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM 5), os transtornos alimentares são caracterizados por uma perturbação persistente na alimentação ou no comportamento relacionado à alimentação e que compromete significativamente a saúde física ou o comportamento psicossocial.
Na compulsão alimentar, o indivíduo come uma quantidade definitivamente maior do que a maioria das pessoas seriam capazes de comer no mesmo período de tempo e em circunstâncias semelhantes. Também é comum que ocorra a sensação de perda de controle sobre o episódio compulsivo. Além disso, há um sentimento de não conseguir parar ou controlar o que se está comendo.
Para que seja considerado um transtorno de compulsão alimentar, é necessário ainda que o episódio compulsivo ocorra pelo menos uma vez na semana durante no mínimo três meses. Exagerar na pizza do fim de semana, nos doces da festinha infantil ou na feijoada da empresa não caracteriza por si só compulsão alimentar, pois provavelmente nestas situações a maioria das pessoas presentes também estará exagerando.
É importante ressaltar que no transtorno de compulsão alimentar não há a prática regular de estratégias como o uso de laxantes, diuréticos, indução de vômito ou abuso de exercícios como forma de compensar a ingestão dos alimentos consumidos. Estas práticas caracterizariam outros transtornos alimentares.
CARACTERÍSTICAS COMUNS NA COMPULSÃO ALIMENTAR:
- Comer muito mais rapidamente do que o normal;
- Comer até sentir-se incomodamente cheio;
- Comer sozinho, pela vergonha da quantidade de comida que está ingerindo;
- Sentir vergonha de si mesmo ou culpa por comer excessivamente;
- Angústia relacionada ao descontrole alimentar.
COMPULSÃO ALIMENTAR X OBESIDADE
Nem todas as pessoas com obesidade sofrem de compulsão alimentar, mas existe uma relação entre compulsão alimentar e obesidade.
Estudos estimam que cerca de 40% das pessoas que decidem realizar uma cirurgia bariátrica sofram com a compulsão alimentar. Estas pessoas apresentam com maior frequência recaídas após tratamentos para a perda de peso. Pessoas obesas que sofrem também compulsão alimentar, apresentam ainda uma maior insatisfação com a imagem corporal, quando comparados com obesos sem o transtorno.
A cirurgia bariátrica é um procedimento que resulta na redução do tamanho do estômago, criando-se um componente restritivo no qual a quantidade de alimentos ingerida é drasticamente diminuída, levando a perda de peso duradoura. No entanto, a restrição imposta pelo procedimento pode representar grande risco aos pacientes com compulsão alimentar, tornando difícil o processo de adaptação à nova condição alimentar. Motivo pelo qual é importante que pacientes que estejam dispostos a submeter-se a uma cirurgia bariátrica, sejam acompanhados por um psicólogo.
Entre as comorbidades mais comuns no transtorno de compulsão alimentar estão a obesidade, transtornos psicológicos e psiquiátricos como bulimia, depressão, transtorno obsessivo compulsivo, transtorno afetivo bipolar, transtorno de personalidade borderline, transtornos de ansiedades e, em menor grau, o uso de substância como álcool e drogas. Vale enfatizar que a comorbidade psiquiátrica está relacionada à gravidade de compulsão alimentar e não ao grau de obesidade.

ASPECTOS PSICOLÓGICOS ENVOLVIDOS NA COMPULSÃO ALIMENTAR:
· Baixa autoestima;
· Evitação e baixo manejo emocional;
· Pensamento “tudo ou nada” (quando não há um meio termo);
· Ansiedade elevada;
· Tendência a buscar aprovação externa;
· Sensibilidade à crítica;
· Falta de assertividade;
· Dificuldade em encontrar forma de prazer e satisfação.
COMO É REALIZADO O TRATAMENTO?
O tratamento mais indicado para os transtornos alimentares, em geral deve ser realizado de forma interdisciplinar, envolvendo médico psiquiatra, nutricionista e psicólogo.
TERAPIA COGNITIVO COMPORTAMENTAL PARA COMPULSÃO ALIMENTAR
A Terapia Cognitivo Comportamental apresenta resultados superiores no tratamento dos transtornos alimentares quando comparada à outras abordagens.
Os aspectos abordados na psicoterapia para compulsão alimentar são a educação para o transtorno, a motivação para a mudança de estilo de vida, a identificação de situações desencadeadoras dos episódios compulsivos, a identificação de crenças disfuncionais sobre mudança, a busca por outras estratégias para a obtenção de prazer e satisfação e a prevenção de recaídas.
É importante ressaltar que as recaídas são comuns e fazem parte do processo. Por isso é preciso aprender a empatizar com elas, focando no seu caráter educativo.
DICAS PARA DRIBLAR EPISÓDIOS COMPULSIVOS:

1. Identificar os antecedentes do episódio de compulsão:
- Tédio;
- Solidão;
- Ansiedade, etc.
2. Estabelecer comportamentos alternativos a compulsão:
- Telefonar para alguém;
- Dar uma volta;
- Ouvir música;
- Praticar relaxamento.
QUANDO O EPISÓDIO OCORRER…
Buscar estratégias para minimizá-lo, como por exemplo: tornar o acesso a alimentos mais difícil, consumir alimentos que necessitem de tempo para preparação, não ir ao supermercado quando está com fome, comer sentado utilizando pratos e não diretamente em potes ou panelas e não comer realizando outra atividade.
PS: Estas dicas possuem caráter educativo, não terapêutico e não substituem o tratamento.
REFERÊNCIAS:
BECK, J. Pense magro por toda a vida. Porto Alegre. Artmed. 2011.
DUARTE, A.L.; PICCOLOTO, L.B. A terapia cognitivo comportamental no transtorno de ansiedade periódica (TCP) in: PICCOLOTO, N. M. ; WAINER, R.; PICCOLOTO, L.B. Tópicos especiais em terapia cognitivo comportamental. São Paulo. Casa do Psicólogo. 2006.
RANGÉ. B. Psicoterapia cognitivo comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre. Artmed. 2001.





